20
de
agosto
O Peso Eterno de Glória
Tenho pensado em duas coisas nesses dias. Achei que iria escrever dois textos mas descobri que eles se confundem; na verdade se misturam. A primeira idéia nasceu de algo que ouvi de um pregador ontem mesmo. O apóstolo Paulo não fala sobre felicidade, ele fala de contentamento. É verdade.
Para a maioria das pessoas felicidade se relaciona com sucesso e a Bíblia também não fala sobre sucesso, ela fala de coração. O sucesso que Deus vê é diferente daquele que nós vemos. Os parâmetros são diferentes. Interessante como somos chamados constantemente por Deus para ver as coisas de um modo diferente do que estamos acostumados. Ele fez isso com Samuel quando pediu que fosse escolher o novo rei de Israel. Samuel foi tentado a decidir fundamentado naquilo que seus olhos viam, ou seja, pela aparência. "Não é por aí" disse Deus. É como se dissesse "o rei que eu escolho não precisa parecer rei, precisa ter coração de um rei".
Já escrevi algo sobre isso, mas gostaria de tratar um pouco mais da questão usando a palavra contentamento. Felicidade sem contentamento é só um sentimento e, sentimentos, todos eles passam. Já amamos e passou; já ficamos com raiva e passou; ficamos angustiados um dia e passou; tristes muitas vezes mas também passou. Tudo o que é sentimento passa. Felicidade também.
Assim como o amor precisa ser regado para se manter vivo, o que rega a felicidade é o contentamento.
Paulo descobriu isso. Não eram as circunstâncias que determinavam seu estado de espírito. Ele aprendeu a viver contente. E é nesse ponto que entra o segundo pensamento que tenho tido.
Paulo, em um determinado momento da sua vida fala sobre "peso eterno de glória". O que me deixa admirado é o contexto que ele usa essa expressão. No contexto ele usa expressões como: atribulados; perplexos; perseguidos; abatidos; entregues à morte; e depois disso tudo ele conclui seu pensamento dizendo:
"porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas". (II Coríntios 4.17-18)
Eu não sei como você vê isso, mas eu fico incomodado. Até quando nossos olhos vão estar fixados nas coisas que vemos somente? A nossa vida é uma constante troca do que tem eterno peso de glória por coisas que representam o aqui e o agora. A fonte do contentamento de Paulo era justamente o seu foco, seu alvo, seu objetivo. Seus olhos estavam fixos em Cristo; sempre n’Ele. Muitos entre nós são diferentes, as circunstâncias determinam suas vidas. A fidelidade de muitos é determinada pelos olhos. Conheço algumas histórias que comprovam isso. Você também conhece.
Ele está em um barco no meio do mar, o vento está forte e a noite está escura. Vê um vulto andando sobre as águas, quando chega mais perto sabe quem é e fica feliz por vê-lo ali e pergunta: posso ir até você? e a resposta vem com a mesma alegria: venha. Aquele homem sai do barco e incrivelmente anda por sobre as águas. Então seus olhos começam a ver as ondas e o movimento delas, muda o foco da sua visão, tem medo e começa a afundar. Seu nome é Pedro. Alguém igual a mim e a você. Veja só.
Está tudo bem com você. Nunca se importou muito com as coisas, com status. Nunca se preocupou em ser aceito pelos outros amigos. Então seus olhos começam a ver aquele lançamento da marca de tênis famosa. É muito caro, mas nesses dias, o que é que você conquista sem fazer sacrifícios? Quase nada. Ainda mais um jovem como você. Vale a pena, segundo os seus olhos, diminuir um pouco a oferta ou esperar que as doze prestações do tênis se acabem para poder voltar a dar o dízimo integralmente com fidelidade como sempre fez.
Mais uma história. É claro que você está feliz com ela. Tantos anos juntos. Ele engordou um pouco, é verdade, tem algumas marcas de expressão, mas na sua mente ela é igualzinha ao dia que vocês se conheceram. Um presente de Deus para sua vida. Então seus olhos começam a ver a moça que senta perto da sua mesa no escritório. Ela é linda. Parece que nunca vai ficar velha; não, essa aí não. Você percebeu que quando ela sorriu para você hoje foi diferente dos outros dias. Haveria problema convidá-la para um almoço? você se pergunta e dá a resposta a si mesmo; claro que não.
Quer mais uma? A igreja estava lotada. A mensagem foi tremenda. Você saiu muito renovado. Chega em casa tarde pois ficou lá conversando com o pessoal, não quis ir embora, estava tão bom ali. Vai ao computador para checar seus e-mails. Então seus olhos começam a ver aquele anúncio sensual que salta em sua direção, você diz: Tá amarrado! fecha aquilo e entra em seus e-mails. Lê alguns, deleta outros sem mesmo ler pois eram aqueles irritantes com apresentações no Powerpoint com imagens de uma girafinha nascendo ou coisas do tipo. Responde os que lhe interessam e sai. Então, liga a televisão só para pegar no sono e, mais uma vez você é bombardeado com uma imagem igualzinha àquela que viu minutos antes. Só que dessa vez ela atinge seu coração e você está sozinho.
Existem outros exemplos. Outras histórias. Mas elas se repetem de formas diferentes mas com o mesmo espírito. A troca do que tem peso eterno de glória pelo aqui e agora.
A pressão pode ser grande para trocarmos e ela é. Mas não foi diferente com Paulo. Mas ele sabia que o que lhe reservava no futuro não dava para se comparar com o que poderia ter em qualquer breve momento no aqui e no agora.
Existem várias perguntas que me vem à mente nesse momento. Que fé é essa que temos vivido? Que tipo de evangelho tem fundamentado essa fé? Por que, muitos de nós, não vivemos de verdade a fé da esperança do tempo que há de vir? Por que falamos de céu, de morar com Deus e enterramos nossas vidas nos valores dessa terra e em tudo o que ela nos oferece aqui?
Quero viver da seguinte forma: as circunstâncias não vão mexer comigo; qualquer coisa será menos importante do que agradar o coração de Deus; meus olhos estarão fixos em Deus e nada vai me tirar do meu foco; quero falar de céu e acreditar que ele virá; não vou trocar o que tem peso eterno de glória por aquilo que é passageiro.
Até mais;
Fabrício.

